O crescimento dos casos de bullying e cyberbullying no Brasil acende um alerta sobre a eficácia das medidas de proteção voltadas a crianças e adolescentes.
👉Por Adriana Ramalho
O ambiente escolar, historicamente associado ao aprendizado, à convivência e à formação cidadã, também tem se tornado palco de uma violência silenciosa, repetitiva e devastadora: o bullying. Com o avanço das redes sociais, aplicativos de mensagem e plataformas digitais, essa prática ganhou uma nova dimensão, ultrapassando os muros da escola e alcançando crianças e adolescentes dentro de casa, no celular e na internet.
Esse novo cenário fortalece o chamado cyberbullying, modalidade de violência praticada no ambiente virtual por meio de ofensas, humilhações, ameaças, exposição de imagens, comentários depreciativos e ataques públicos. Diferentemente do bullying presencial, o cyberbullying pode ocorrer a qualquer hora, atingir um público maior e permanecer registrado por tempo indeterminado, ampliando o sofrimento da vítima.
Dados recentes revelam a gravidade do problema. No Brasil, aproximadamente um em cada quatro estudantes entre 13 e 17 anos já foi vítima de bullying. Em escala global, mais de 150 milhões de adolescentes nessa mesma faixa etária convivem com a violência entre pares nas escolas. Segundo a UNESCO, todas as escolas brasileiras registram casos de bullying, colocando o país entre os que mais enfrentam esse tipo de violência no mundo.
No ambiente digital, os números também preocupam. Cerca de 13,2% dos estudantes brasileiros já sofreram cyberbullying. Em nível mundial, um em cada três jovens afirma ter sido vítima de bullying online. Outro dado acende um alerta ainda maior: 66% das crianças acreditam que o cyberbullying aumentou, enquanto metade delas sequer sabe como denunciar ou buscar ajuda.
Impactos profundos na saúde e na educação
Os efeitos do bullying vão muito além de episódios isolados de agressão. A violência contínua compromete a autoestima, a saúde emocional, o desempenho escolar e a convivência social das vítimas. Crianças e adolescentes expostos a esse tipo de agressão apresentam maior risco de desenvolver ansiedade, depressão, isolamento, queda no rendimento escolar e até evasão.
Em situações mais graves, o sofrimento pode evoluir para pensamentos suicidas, especialmente quando a vítima não encontra acolhimento, proteção ou canais seguros para pedir ajuda. Esse é um ponto que exige atenção imediata das famílias, escolas e autoridades públicas.
O cyberbullying agrava ainda mais esse quadro. Por acontecer no ambiente digital, a agressão pode ser compartilhada, comentada e replicada rapidamente, criando uma sensação permanente de exposição. Uma ofensa publicada em segundos pode gerar consequências psicológicas duradouras.
O problema também não atinge apenas a vítima direta. Agressores e espectadores também são afetados. Jovens que praticam bullying podem desenvolver comportamentos de risco, enquanto aqueles que presenciam a violência muitas vezes se sentem impotentes, culpados ou inseguros diante das agressões.
Crescimento das denúncias e maior visibilidade do problema
No Brasil, o aumento das notificações mostra que o problema está mais visível, mas também indica a persistência da violência dentro e fora das escolas. Em 2024, foram registradas mais de 2,3 mil denúncias de bullying em instituições de ensino, crescimento de cerca de 67% em relação ao ano anterior.
Apesar desse avanço nas denúncias, especialistas alertam para a subnotificação. Muitos casos não chegam ao conhecimento das autoridades por medo de retaliação, vergonha, falta de orientação ou ausência de canais acessíveis de acolhimento. No ambiente digital, essa dificuldade é ainda maior, pois muitas vítimas não sabem como registrar provas, bloquear agressores ou formalizar uma denúncia.
Políticas públicas e caminhos de enfrentamento
Diante do avanço do problema, o Brasil passou a adotar medidas mais rigorosas. Em 2024, entrou em vigor legislação que tipifica o bullying e o cyberbullying como crimes, prevendo punições mais severas, especialmente quando a violência ocorre em ambientes virtuais. A medida representa um marco importante no reconhecimento da gravidade dessas práticas.
No entanto, a resposta penal sozinha não resolve o problema. O enfrentamento exige prevenção, educação, escuta qualificada e acompanhamento psicológico. Escolas precisam desenvolver programas permanentes de convivência, capacitar professores, orientar alunos e criar canais seguros para denúncias.
Famílias também têm papel fundamental. Pais e responsáveis devem observar mudanças de comportamento, queda no rendimento escolar, isolamento, medo de ir à escola, alterações no sono e uso excessivo ou repentino afastamento das redes sociais.
Organismos internacionais, como UNESCO e UNICEF, defendem estratégias integradas para combater o bullying e o cyberbullying, incluindo educação digital, apoio emocional, políticas de inclusão, participação da comunidade escolar e proteção efetiva das vítimas.
Um desafio urgente e coletivo
O avanço do bullying e do cyberbullying expõe falhas estruturais na proteção de crianças e adolescentes. Mais do que punir, é preciso prevenir, acolher e educar.
Em uma realidade na qual a violência pode se espalhar em segundos pelas telas, garantir ambientes seguros físicos e digitais tornou-se uma responsabilidade coletiva. Escola, família, poder público e sociedade civil precisam atuar juntos para interromper um ciclo que compromete não apenas o presente, mas também o futuro de milhões de jovens.
O silêncio, nesse caso, favorece o agressor. A informação, a denúncia e o acolhimento salvam vidas.
*Adriana Ramalho
Bacharel em Direito, política, vereadora em São Paulo entre 2016 e 2020, ativista social e palestrante sobre combate à violência doméstica, alienação parental, empreendedorismo feminino e saúde mental.
