Após previsão oficial para 2025, empresas não confirmam regularização em 2026 e evitam apresentar dados sobre produção e distribuição
A crise de abastecimento do medicamento Neuleptil (periciazina), essencial em tratamentos psiquiátricos especialmente para crianças e pessoas com transtorno do espectro autista ganha dimensão nacional diante da ausência de confirmação sobre sua normalização e da falta de transparência das empresas envolvidas.
Documentos oficiais analisados pela reportagem mostram que, mesmo após a previsão de regularização para novembro de 2025, não há comprovação de que o fornecimento tenha sido restabelecido em 2026. A resposta mais recente das empresas limita-se a repetir problemas na matéria-prima, sem apresentar prazos, números ou evidências concretas de abastecimento.
O fato: promessa feita, prazo dado e nenhuma confirmação
Em outubro de 2025, a expectativa era clara: a produção das versões em gotas do Neuleptil seria retomada e o mercado normalizado a partir de novembro daquele ano.
Mas o cenário atual desmonta essa previsão:
- não há confirmação formal de normalização;
- não existem dados públicos de distribuição em 2026;
- não há cronograma atualizado;
- não foi criado qualquer mecanismo de transparência para pacientes.
Na resposta enviada em abril de 2026, a empresa responsável pelo registro afirma apenas que houve atraso no fornecimento de matéria-prima e que trabalha para normalizar o abastecimento “o mais breve possível” sem esclarecer quando, como ou em que escala isso ocorrerá.
Como a crise se formou: a cronologia do desabastecimento
A análise documental revela um padrão consistente de atraso sem atualização concreta:
Março de 2024
- Início do desabastecimento, associado a problemas no processo produtivo
Março de 2025
- Mudança na cadeia comercial: nova distribuidora assume o produto
Outubro de 2025
- Empresa informa previsão de normalização a partir de novembro
Novembro de 2025
- Prazo oficial para regularização do mercado
Abril de 2026
- Persistem relatos de falta em diferentes regiões
- Questionamentos detalhados são enviados pela reportagem
Abril de 2026 (resposta oficial)
- Não há confirmação de normalização
- Não há dados de produção ou distribuição
- Não há novo prazo definido
- Justificativa permanece a mesma: atraso na matéria-prima
Como isso impacta na prática: o problema sai da indústria e chega ao paciente
O Neuleptil em gotas não é um medicamento substituível simples.
Ele é utilizado quando há necessidade de:
- ajuste preciso de dose;
- administração em pacientes com dificuldade de deglutição;
- controle de sintomas comportamentais específicos.
Sem acesso ao medicamento:
- famílias percorrem diversas farmácias sem encontrar o produto;
- médicos são obrigados a alterar tratamentos;
- pacientes podem sofrer descompensações clínicas.
O que começa como falha produtiva termina como risco assistencial.
ANÁLISE: o que os documentos revelam e o que não revelam
A força dessa apuração está tanto no que foi dito quanto no que foi omitido.
1. Repetição de justificativa
A explicação sobre matéria-prima permanece inalterada desde 2025.
2. Ausência de dados concretos
Nenhuma informação foi apresentada sobre:
- volumes distribuídos em 2026;
- regiões abastecidas;
- estoque disponível.
3. Falta de previsibilidade
Sem prazo, o paciente não tem qualquer referência de quando poderá acessar o medicamento.
O resultado é claro: um cenário sem transparência e sem controle público efetivo.
AUTORIDADE: o que deveria acontecer segundo a regulação
De acordo com diretrizes da ANVISA:
- medicamentos essenciais devem ter fornecimento contínuo;
- empresas devem comunicar desabastecimentos de forma clara;
- devem ser adotadas medidas para minimizar impacto ao paciente.
Já o Código de Defesa do Consumidor determina que a oferta precisa ser adequada e contínua o que inclui medicamentos de uso regular.
A ausência de informações objetivas coloca em xeque o cumprimento dessas obrigações.
IMPACTO LOCAL: o reflexo da crise nacional nas cidades da região
Embora o problema tenha escala nacional, seus efeitos são sentidos diretamente nas cidades da Rede Impacto:
Cotia, Osasco, Barueri, Guarulhos, Santo André e São Bernardo do Campo
Nesses municípios:
- farmácias relatam falta recorrente das versões em gotas;
- famílias enfrentam deslocamentos sucessivos em busca do medicamento;
- cresce a dependência de alternativas terapêuticas menos adequadas.
Em Cotia, os relatos indicam que a indisponibilidade não é episódica é contínua.
SERVIÇO AO LEITOR: o que fazer diante da falta do medicamento
Se você depende do Neuleptil:
- Não interrompa o tratamento sem orientação médica
- Procure seu médico para avaliar alternativas seguras
- Consulte diferentes redes de farmácia e hospitais
- Registre reclamação na ANVISA (Notivisa ou FalaBR)
- Busque a Defensoria Pública em casos de falta prolongada
O caso do Neuleptil ultrapassa o limite de um problema industrial.
Ele expõe uma fragilidade mais profunda:
a incapacidade de garantir transparência e previsibilidade em um medicamento essencial para pacientes vulneráveis.
A promessa foi feita.
O prazo foi estabelecido.
Mas, até agora, não há confirmação de que tenha sido cumprido.
E, sem dados, sem prazo e sem clareza, o que resta ao paciente é a incerteza um cenário incompatível com qualquer sistema de saúde que se pretenda confiável.
Vinícius Mororó – Jornalista Atípico
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