Por Vinicius Mororó – Jornalista Atípico
Depois de anos de polarização em torno da amarelinha, Mundial reacende rituais populares que sempre fizeram da Copa uma experiência coletiva no país
A Copa do Mundo de 2026 pode representar muito mais do que a tentativa do Brasil de conquistar o hexacampeonato. Para muitos torcedores, o torneio chega também como uma chance de reencontro com símbolos que, durante décadas, fizeram parte da identidade popular brasileira: a camisa amarela da Seleção, o álbum de figurinhas, as ruas pintadas, as bandeirinhas penduradas e a antiga sensação de que, em tempo de Copa, o país inteiro cabia dentro de uma mesma torcida.
Nos últimos anos, essa relação ficou mais complicada. A camisa da Seleção Brasileira, antes associada quase automaticamente ao futebol, à infância, aos craques e às memórias das Copas, passou a carregar também uma leitura política nas ruas. Em manifestações, atos públicos e disputas eleitorais, o verde-amarelo e a amarelinha foram frequentemente associados ao bolsonarismo e a movimentos de direita, fenômeno já analisado por veículos nacionais e por estudos acadêmicos sobre a apropriação simbólica da camisa canarinho.
O efeito foi perceptível. Parte dos brasileiros passou a evitar a camisa amarela por receio de ser identificada politicamente. Vestir a amarelinha, em determinados ambientes, deixou de ser apenas gesto de torcida e passou a ser interpretado como possível sinal ideológico. A camisa que um dia aproximou desconhecidos diante da televisão também passou, em alguns contextos, a separar pessoas antes mesmo de a bola rolar.
Mas a Copa de 2026 chega em outro momento. O torneio será disputado de 11 de junho a 19 de julho, em Estados Unidos, México e Canadá, na primeira edição com 48 seleções e 104 partidas. Junto com o calendário esportivo, volta uma pergunta simbólica: a camisa do Brasil pode voltar a ser do povo brasileiro, sem dono partidário, sem rótulo ideológico e sem constrangimento social?
Essa talvez seja uma das disputas mais importantes da Copa fora de campo.
A camisa amarela não nasceu política. Nasceu esportiva, afetiva e popular. Está ligada à memória de Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Marta, Neymar e tantos outros nomes que fizeram o brasileiro parar diante da televisão. A camisa é lembrança de criança correndo na rua, família reunida na sala, comércio fechando mais cedo, escola liberando aluno, fogos depois do gol e silêncio coletivo depois de uma eliminação.
Por isso, recuperar a amarelinha como símbolo comum não é apenas uma questão de futebol. É uma disputa sobre pertencimento. Afinal, quem tem direito aos símbolos nacionais? Um partido? Um presidente? Uma ideologia? Um grupo político? Ou o povo inteiro?
A resposta parece óbvia, mas o Brasil recente mostrou que símbolos também podem ser capturados, desgastados e reinterpretados. Bandeira, hino, camisa e cores nacionais passaram por uma tensão simbólica. Em muitos lugares, usar verde e amarelo deixou de ser um gesto neutro. E isso empobreceu a relação do brasileiro com o próprio país.
Ao mesmo tempo, outro símbolo tradicional da Copa volta a ganhar força: o álbum de figurinhas. A coleção oficial da Panini para a Copa de 2026 acompanha a maior edição da história do torneio e reúne 980 cromos, sendo 68 especiais, segundo informações da própria empresa. O produto reacende uma tradição que atravessa gerações: abrir pacotinhos, procurar jogadores, trocar repetidas, completar seleções e transformar a espera pelo Mundial em ritual diário.
Se a camisa veste o torcedor, o álbum organiza a memória da Copa.
Há algo profundamente brasileiro nesse costume. O álbum não é apenas consumo. Ele cria conversa. Aproxima pais e filhos. Leva crianças às bancas. Junta desconhecidos em pontos de troca. Faz o torcedor conhecer seleções pequenas, jogadores desconhecidos e países que talvez só apareçam no mapa afetivo durante o Mundial.
Mesmo em uma época dominada por redes sociais, vídeos curtos, games, streaming e apostas esportivas, o álbum mantém uma experiência física e coletiva. Ele exige paciência, repetição, negociação e encontro. É quase o contrário da pressa digital.
Mas aqui existe um ponto que não pode ser ignorado: a Copa voltou cara. Segundo o ge, cada pacote do álbum da Copa de 2026 tem sete figurinhas e custa R$ 7; o valor mínimo para completar a coleção mais barata seria de R$ 1.004,90, sem contar cromos repetidos. Ou seja, o álbum volta ao imaginário popular, mas nem sempre retorna com a mesma acessibilidade de outras épocas.
Esse contraste é importante. A Copa reacende o desejo coletivo, mas o futebol moderno transformou parte da paixão popular em produto premium. A camisa oficial custa caro. O álbum custa caro. Produtos licenciados custam caro. A festa continua popular no sentimento, mas nem sempre no preço.
E há ainda um terceiro símbolo essencial: as ruas pintadas e enfeitadas.
Durante décadas, a Copa do Mundo no Brasil não começava apenas no primeiro jogo da Seleção. Começava quando a vizinhança se reunia para pintar o asfalto, pendurar bandeirinhas, desenhar a taça, escrever “Vai, Brasil” no chão, decorar muros e transformar a rua em arquibancada. Crianças ajudavam com tinta, adultos organizavam o churrasco, comerciantes entravam no clima e até quem não acompanhava futebol acabava participando da festa.
A rua enfeitada é diferente da camisa e do álbum. A camisa é individual. O álbum é familiar e social. A rua pintada é comunitária.
Quando uma rua é pintada para a Copa, o futebol deixa de ser apenas espetáculo de televisão e volta a ocupar o território. A torcida sai da tela e entra no bairro. A Copa deixa de ser só evento da Fifa, das marcas e das transmissões milionárias, e volta a ser também encontro de vizinhos, memória de infância e celebração coletiva.
Mas seria ingenuidade dizer que as ruas deixaram de ser enfeitadas apenas por causa da política. O esfriamento do clima de Copa também tem relação com mudanças profundas na vida urbana: violência, falta de tempo, crescimento dos condomínios fechados, enfraquecimento das relações de vizinhança, custo dos materiais, rotina exaustiva de trabalho e transformação do futebol em produto global.
O Brasil talvez não tenha deixado de gostar de futebol. Talvez tenha deixado de viver a Copa da mesma forma.
Por isso, a Copa de 2026 será um teste simbólico. Não apenas para a Seleção em campo, mas para o país fora dele. Será possível ver novamente famílias vestindo a camisa sem constrangimento? Crianças trocando figurinhas nas escolas? Ruas pintadas sem briga política? Vizinhos torcendo juntos sem perguntar antes em quem o outro votou?
A resposta ainda não está dada.
O que existe, por enquanto, é uma oportunidade. A oportunidade de devolver a camisa ao torcedor, o álbum à memória afetiva e a rua ao convívio popular. A oportunidade de entender que símbolo nacional não pertence a governo, partido ou movimento político. Pertence à população que trabalha, sofre, torce, discorda, se emociona e, mesmo dividida, ainda reconhece no futebol uma linguagem comum.
A Copa de 2026 não apagará a polarização brasileira. Nenhum evento esportivo tem esse poder sozinho. Mas ela pode abrir uma fresta. Pode permitir que o brasileiro volte a vestir a camisa, abrir o álbum, pintar a rua e torcer pelo mesmo país sem transformar cada gesto em declaração ideológica.
Talvez o maior desafio do Brasil nesta Copa não seja apenas vencer adversários em campo. Será reencontrar a capacidade de celebrar algo em comum.
Porque, antes de qualquer disputa política, a camisa é do torcedor.
O álbum é da memória.
A rua é da comunidade.
E o Brasil, goste-se ou não, precisa voltar a caber dentro dos seus próprios símbolos.
Análise
A força da Copa de 2026 no Brasil não estará apenas no desempenho da Seleção. Estará também na capacidade de recuperar símbolos que foram desgastados pela polarização, pelo afastamento social e pela transformação do futebol em produto de alto valor comercial.
A camisa amarela, o álbum de figurinhas e as ruas enfeitadas formam uma espécie de mapa afetivo do futebol brasileiro. Cada um representa uma dimensão da Copa: o corpo do torcedor, a memória da infância e o território da comunidade.
No entanto, essa retomada não será automática. A camisa precisa ser despolitizada no uso cotidiano. O álbum precisa enfrentar o desafio do preço. As ruas precisam voltar a ser espaços de convivência, algo cada vez mais difícil em cidades marcadas por medo, pressa e isolamento.
A Copa pode reacender a chama. Mas quem decide se essa chama vira festa popular novamente é a própria sociedade.

