Encontro realizado na OAB Cotia reuniu relatos de autonomia, desafios e conquistas e marcou o lançamento de cartilha voltada ao atendimento e à comunicação inclusiva.
Dar espaço para quem muitas vezes ainda enfrenta barreiras para ser ouvido. Foi com esse propósito que Cotia realizou o encontro “Xô Solidão: Nossas Vozes, Nossas Histórias”, promovido pelo Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CMDDPcD), em parceria com a Secretaria Municipal das Mulheres, Direitos Humanos e Neurodiversidade.
O evento aconteceu no dia 21 de setembro de 2026, das 9h às 12h, na OAB Cotia, que cedeu o espaço para a realização da programação. A atividade marcou o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência e reuniu pessoas com deficiência, familiares e representantes de instituições para compartilhar experiências sobre acessibilidade, autonomia, participação social e direitos.
Durante o encontro, histórias pessoais mostraram que inclusão não se resume ao acesso físico aos espaços. Ela também passa pela comunicação, pela possibilidade de participar das decisões, pela oferta de oportunidades e pelo reconhecimento das diferentes formas de viver e se expressar.
Da surdocegueira à luta por acessibilidade
Presidente do CMDDPcD de Cotia e integrante do Conselho Estadual, Camila Indalécio Pereira falou sobre sua trajetória como pessoa surdocega e sobre os obstáculos enfrentados ao longo da vida.
Camila tem síndrome de Usher, condição hereditária e degenerativa que provoca perda progressiva da audição e da visão. Para se comunicar, utiliza o método Tadoma, técnica de comunicação tátil que permite compreender a fala por meio do toque.
Ao relatar sua experiência, Camila chamou atenção para uma realidade que ainda atinge muitas pessoas com deficiência: o isolamento.
“Tem muitas pessoas com deficiência na cidade de Cotia que estão isoladas. Ainda temos muito a trabalhar”, afirmou.
Segundo ela, ampliar a inclusão passa por avanços em áreas como transporte, esporte, cultura e participação social.
Camila integra o Conselho Municipal desde 2018 e atualmente preside o colegiado. Para ela, os avanços conquistados são resultado da mobilização de muitas pessoas, mas ainda há um caminho importante pela frente.
“Se hoje esse Conselho está de pé, é graças às pessoas que estiveram envolvidas. Ainda temos muito para conquistar nessa cidade”, disse.
Histórias que mostram diferentes formas de autonomia
Entre os participantes estava Suzana Clini Silva, de 18 anos, que tem síndrome de Down. Ao lado da mãe, Simone Clini, Suzana falou sobre seus interesses, estudos e atividades. Apaixonada por música, ela estuda inglês e dança.
Simone destacou a importância de criar projetos e atividades voltados a adolescentes e jovens com deficiência.
“A gente quer ter voz aqui na nossa cidade, com projetos”, afirmou.
Outra história compartilhada foi a de Vinicius Henrique Ferreira de Melo, de seis anos, que tem acondroplasia, condição genética associada à forma mais comum de nanismo.
Sua mãe, Érica, relatou os desafios enfrentados desde o nascimento do filho, que nasceu prematuro e apresentou dificuldades relacionadas à fala. Atualmente, Vinicius realiza acompanhamento fonoaudiológico no CEFOR.
Uma das lembranças mais marcantes da família foi a espera de mais de dois anos até que ele dissesse a palavra “mãe”.
Participar também significa respeitar limites
Arthur Henrique de Morais, de 19 anos, participou do encontro por vídeo. Autista, estudante de Ciência de Dados na Fatec, apaixonado por informática e estudante de japonês, Arthur optou pela participação remota diante da dificuldade de estar presencialmente no evento.
Sua mãe, Ana Moraes, falou sobre os desafios enfrentados pela família desde o diagnóstico e sobre a importância da criação de redes de apoio.
“Desde o diagnóstico foi uma luta solitária. É muito bom estar junto com outras pessoas que ajudam a nos entender”, afirmou.
A participação remota também reflete uma prática adotada pelo próprio CMDDPcD. As reuniões do Conselho são realizadas de forma on-line para ampliar a participação de pessoas que enfrentam dificuldades de mobilidade ou outras barreiras de acesso.
Comunicação também pode incluir ou excluir
Outro momento importante do encontro foi o lançamento da Cartilha de Atendimento e Comunicação Inclusiva do Cioeste.
O material foi elaborado pelo grupo de trabalho voltado às políticas para pessoas com deficiência do consórcio, com participação de representantes de Cotia e colaboração da Secretaria Municipal das Mulheres, Direitos Humanos e Neurodiversidade.
A cartilha reúne orientações para melhorar a forma como pessoas com deficiência são atendidas em serviços públicos e privados, reforçando que inclusão também depende de linguagem adequada, escuta, postura e respeito às diferentes necessidades.
A vice-presidente da Câmara Técnica da Pessoa com Deficiência, Solange Aroeira, destacou que pequenas atitudes também fazem parte da construção de uma sociedade mais acessível.
“Todos temos nossas dores e dificuldades e, quando olhamos para o outro que também tem, damos as mãos e caminhamos juntos”, afirmou.
A representante do Cioeste, Letícia Queiroz Martins, informou que o material está sendo apresentado nos municípios que fazem parte do consórcio.
Já a vice-presidente do CMDDPcD e fonoaudióloga da área de reabilitação, Luciana Raposo, resumiu um dos pontos centrais debatidos durante o encontro:
“Incluir não é só permitir acesso, mas dar dignidade.”
OAB Cotia também participa do debate
A programação contou ainda com a participação da Dra. Nilda Guerra, representante da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB, que abordou os avanços previstos na legislação brasileira e os desafios para transformar direitos garantidos no papel em realidade no cotidiano.
Além da participação no debate, a OAB Cotia cedeu o espaço para a realização do “Xô Solidão: Nossas Vozes, Nossas Histórias”, contribuindo para a promoção de uma manhã dedicada à escuta, à inclusão e à defesa dos direitos das pessoas com deficiência.
Para Solange Aroeira, a própria data que motivou o encontro representa uma história construída pela mobilização das pessoas com deficiência.
“Ninguém deveria lutar sozinho. Uma pessoa pode ter muita força, mas não deveria precisar ser forte o tempo todo e sozinha”, afirmou.
Inclusão precisa acontecer na prática
O “Xô Solidão” mostrou que inclusão não se constrói apenas com estruturas físicas ou datas simbólicas. Ela acontece quando pessoas com deficiência conseguem ser ouvidas, participar, estudar, trabalhar, circular, comunicar-se e ocupar os espaços da cidade com autonomia e dignidade.
Mais do que um encontro, a iniciativa colocou em evidência histórias que ajudam a transformar uma pauta muitas vezes tratada de forma abstrata em algo concreto: incluir é criar condições reais para que cada pessoa possa participar da sociedade, exercer seus direitos e construir sua própria trajetória.

