Mesmo com desafios de acesso e localização, chegada do IFSP representa avanço estratégico para educação pública, qualificação profissional e desenvolvimento regional.

A inauguração do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo Campus Cotia precisa ser analisada além da cerimônia oficial. Mais do que a abertura de um novo prédio público no Jardim Barbacena, na região da Granja Viana, a chegada do IFSP coloca Cotia dentro de uma rede federal de ensino técnico, científico e tecnológico reconhecida pela formação pública, gratuita e conectada ao mundo do trabalho.

A crítica sobre a localização do campus não deve ser ignorada. Cotia é uma cidade extensa, com bairros distantes entre si e uma mobilidade que ainda impõe dificuldades reais para parte da população. Para muitos estudantes, o deslocamento até o Jardim Barbacena exigirá planejamento, transporte público eficiente e políticas de apoio. Mas esse ponto não diminui a importância da conquista. Ao contrário: mostra que a chegada do Instituto Federal precisa vir acompanhada de uma segunda agenda pública, voltada ao acesso, à integração dos bairros e à permanência dos alunos.

O erro seria reduzir o debate a uma pergunta simples: “fica perto ou longe?”. A pergunta correta é outra: o que uma instituição federal pode mudar na vida de jovens, trabalhadores e famílias de Cotia nos próximos anos? A resposta passa por formação técnica, ensino médio integrado, cursos superiores, qualificação profissional, pesquisa aplicada, inovação e novas possibilidades de inserção no mercado de trabalho.

O Campus Cotia já oferece cursos de capacitação de curta duração e a previsão é que, a partir de 2027, sejam iniciadas turmas do ensino médio integrado ao técnico e cursos superiores. A unidade deve atuar em áreas como Automação Industrial, Sistemas de Energia Renovável, Química, Biotecnologia e Licenciatura em Matemática, cursos definidos após audiências públicas e estudos sobre o perfil econômico, social e produtivo do município.

Esse detalhe é central. O Instituto Federal não chega como uma escola isolada da realidade local. A escolha dos eixos tecnológicos considerou características de Cotia, incluindo a presença da indústria, a necessidade de mão de obra qualificada e o desafio de conciliar desenvolvimento com sustentabilidade. Segundo o próprio IFSP, a cidade tem uma área ambiental relevante, com a Reserva Florestal do Morro Grande ocupando cerca de um terço do território, ao mesmo tempo em que parte importante dos empregos está ligada à indústria.

Na prática, isso significa que o campus pode ajudar Cotia a formar profissionais para setores que já existem na cidade e para áreas que devem crescer nos próximos anos. Energia renovável, automação, química e biotecnologia não são temas distantes da vida real. Eles se conectam com indústria, meio ambiente, tecnologia, inovação, serviços, geração de emprego e desenvolvimento econômico.

Outro ponto pouco valorizado é que o Instituto Federal não atende apenas adolescentes em idade escolar. A rede também oferece cursos de formação inicial e continuada, qualificação profissional, extensão, pesquisa e, gradualmente, ensino superior. Isso amplia o alcance da unidade para trabalhadores que buscam recolocação, jovens que precisam de formação técnica e adultos que desejam melhorar a renda por meio da educação.

O impacto também não se limita ao estudante matriculado. Uma instituição federal movimenta professores, técnicos, pesquisadores, projetos, parcerias, atividades culturais, ações de extensão e diálogo com empresas, escolas e comunidades. Quando funciona bem, o campus passa a ser um equipamento público permanente de desenvolvimento local.

O IFSP já é uma das maiores instituições da Rede Federal no país. Em março de 2026, o instituto contava com 41 campi, um polo de inovação, 660 cursos e mais de 67 mil estudantes. A chegada de Cotia a essa rede significa que o município passa a participar de uma estrutura nacional de educação profissional e tecnológica, com padrão institucional, corpo técnico especializado e possibilidade de expansão acadêmica ao longo dos anos.

Também é importante olhar para o investimento. Segundo a Prefeitura de Cotia, o Governo Federal investiu R$ 41,5 milhões na aquisição do prédio onde funcionavam as antigas Faculdades Europan, enquanto o município participou da estruturação da unidade com mobiliário e apoio à implantação. Já o IFSP informou que o Campus Cotia recebeu R$ 51,3 milhões do Novo PAC para aquisição e reforma do imóvel. Em qualquer uma das referências, trata-se de um investimento público expressivo em educação dentro do município.

A discussão, portanto, não deve ser se Cotia precisava ou não de um Instituto Federal. Uma cidade com quase 300 mil habitantes, perfil regional, demanda por qualificação e desigualdades internas precisa de mais portas de entrada para educação pública de qualidade. O que precisa ser cobrado agora é execução: transporte adequado, divulgação clara dos cursos, processo seletivo acessível, políticas de permanência estudantil, diálogo com escolas municipais e estaduais, e conexão real com o mercado de trabalho local.

O Instituto Federal não resolverá sozinho os problemas educacionais, sociais e econômicos de Cotia. Nenhuma instituição faz isso isoladamente. Mas sua chegada cria uma base concreta para mudar trajetórias. Para muitos jovens, pode ser a diferença entre terminar o ensino médio sem perspectiva profissional ou sair com formação técnica reconhecida. Para trabalhadores, pode significar capacitação gratuita. Para a cidade, pode representar inovação, mão de obra qualificada e fortalecimento da economia local.

A crítica à distância é legítima quando aponta um problema de acesso. Mas ela se torna pequena quando usada para diminuir a relevância de uma conquista estrutural. O desafio de Cotia não é rejeitar o Instituto Federal porque ele não fica perto de todos. O desafio é garantir que ele seja, de fato, para todos.

A inauguração do IFSP em Cotia marca o início de uma nova etapa. O prédio foi entregue. Agora começa a parte mais importante: transformar a presença federal em oportunidade real, permanente e acessível para quem mais precisa.

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Jornalista especializado em Jornalismo Político, Jornalismo Investigativo e Consultoria Ambiental, com atuação voltada à análise crítica, comunicação estratégica e cobertura de impacto público. Atualmente aprofunda estudos em gestão de crises públicas e privadas, ampliando sua atuação nas áreas de comunicação institucional e inteligência editorial. Fundador e articulador de uma das maiores redes regionais de mídia digital em expansão no estado de São Paulo, atua na coordenação editorial e distribuição de conteúdo para dezenas de portais de notícias, com presença em diversas cidades paulistas. Com linguagem analítica, posicionamento crítico e forte conexão com a realidade social, desenvolve narrativas que vão além do factual, explorando os bastidores do poder, os impactos da informação e os movimentos que moldam a sociedade contemporânea.

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